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Selo 2015

Câmara de Vereadores de Passo Fundo/RS

NOTÍCIA

HISTÓRIA

Teixeirinha levou o nome de Passo Fundo para o Brasil e o mundo

A série “Revivendo Passo Fundo” relembra a trajetória de personagens que marcaram na história do município. Em virtude de estarmos no mês do aniversário de Passo Fundo, e neste caso, completando 165 anos de fundação, as edições deste mês de agosto trarão personalidades de outras áreas, para além da política, que contribuíram para o crescimento da cidade. Nesta edição, o personagem é o cantor, compositor, radialista, tradicionalista e cineasta Vitor Mateus Teixeira, lembrado e imortalizado pela alcunha de Teixeirinha. Ele ainda exerceu outras funções em sua juventude até encontrar seu caminho na música, levando o nome de Passo Fundo para todo o Brasil e muitos outros países onde sua obra foi e é executada.

Vitor Mateus Teixeira nasceu no dia 3 de março de 1927 em Mascarada, localidade pertencente à época ao que hoje é o município de Rolante (RS), como filho primogênito de Saturnino Francisco Teixeira e Ledurina Matheus Teixeira. Quando ele tinha poucos meses de vida, a família mudou-se para Padre Tomé, situada em Taquara (RS). Ele teve uma infância difícil, devido às condições precárias em que se encontravam. Além disso, sofreu desde cedo com as perdas familiares, iniciando pelo falecimento de seu pai, por ataque cardíaco, quando o pequeno Vitor tinha seis anos apenas. Três anos depois, em 1936, sua mãe foi vitimada por uma fatalidade em que ela sofreu gravíssimas queimaduras causadas por incêndio. Logo, sem seus pais presentes sem ter completado dez anos de vida, iniciou sua peregrinação indo morar com parentes e percorrendo o mundo com o tempo.

A partir dos 16 anos, Vitor foi trabalhar em granjas e começou a se desenvolver como cidadão, pois ao completar 18 anos, foi para Porto Alegre (RS) trabalhar e morar em uma pensão. Neste período, ele pôde aprender a ler e escrever e, tempos depois, comprar seu primeiro violão. Ele ainda trabalhou em diversas funções para garantir seu sustento, dentre elas, vendedor de doces, carregador de malas, engraxate e carroceiro.

Com um violão e com algum tempo livre, começou a frequentar estúdios de rádio cantando sambas. Porém, se desiludiu pouco tempo depois e voltou para o interior tentar outros caminhos, trabalhando em uma fazenda de arroz. Logo, em 1949, começou a trabalhar no Departamento de Estradas de Rodagem (DAER) como operador de máquinas, onde ficou durante seis anos e conheceu o acordeonista Pereirinha, com quem formou a primeira dupla.

A partir daí, após sair do DAER, Vitor iniciou sua trajetória na música se apresentando com sua dupla em emissoras de rádio pelo interior. Conheceu e se tornou amigo de Gildo de Freitas, panteão do tradicionalismo, e que se tornou um de seus grandes incentivadores para a carreira musical. Atuou em cidades como Lajeado, Estrela, Rio Pardo e Santa Cruz do Sul, sendo nesta última o local onde conhecera sua esposa Zoraide Lima Teixeira, com quem se casou em 1957. Após o casamento, eles fixaram residência em Soledade (RS).

Por este período, Vitor já havia visitado Passo Fundo e montado uma banca de tiro ao alvo na Avenida Brasil com a rua Sete de Setembro. Também havia iniciado a se apresentar no programa “Alô, Rio Grande”, da Rádio Passo Fundo. Ao mesmo tempo, durante o dia o cantor vendia décimas na Gare da Viação Férrea.

Tempos depois, ele e sua família mudaram-se em definitivo para Passo Fundo, residindo na rua Bororós. Passou a se apresentar frequentemente na Rádio Municipal e seguiu viajando a fazer shows pelo estado com outros músicos. Ele passou a se tornar figura popular na cidade e a contar com amplo apoio da comunidade, tendo como grandes incentivadores os tradicionalistas Irai Paim Varella e seu primo Ivo Paim.

Além de ajudarem para que ele pudesse ter seu programa de rádio, eles deram grandes contribuições para, junto de doações da comunidade, Teixeirinha poder ir a São Paulo gravar seu primeiro compacto, indo de trem até a capital paulista. Lá gravou seu primeiro compacto em 78 RPM contendo as músicas “Xote Soledade” e “Briga no Batizado”. Para ajudar nas vendas do compacto, Ivo e outros amigos organizaram shows em clubes locais, como o Cruzeiro, Industrial, Vera Cruz, além dos municípios vizinhos, visando arrecadar fundos para gravar um long-play, já que era necessária uma certa quantia para custear as gravações. Então, para esses espetáculos, a solução foi o ingresso ser a compra de um disco, que servia de entrada. Com isso, o número necessário foi alcançado.

Além disso, o compacto teve grande repercussão alçando Teixeirinha às paradas. No entanto, ao gravar “Gaúcho de Passo Fundo” e “Coração de Luto”, em 1960, tornou-se celebridade. Ambas canções se tornariam clássicos de seu repertório e do tradicionalismo, sendo que a segunda fez enorme sucesso em outros estados do país meses após seu lançamento, especialmente no interior de São Paulo. Como consequência do enorme sucesso, Teixeirinha gravou o LP “Gaúcho Coração do Rio Grande”, pela gravadora Chantecler, o que foi decisivo para catapulta-lo a artista em nível nacional.

Com sua enorme fama, Teixeirinha acabou se mudando com a família para a capital gaúcha, devido à enorme agenda que tinha de cumprir. Durante uma de suas turnês, mais precisamente em Bagé, por volta de 1962, iniciou o que viria a ser a sua dupla mais famosa com uma acordeonista de 15 anos, chamada Mary Teresinha Brum. Por ser menor de idade, sua avó, Alzira a acompanhava nas viagens e shows.  A parceria durara um total de 22 anos, com os dois formando uma dupla que ficou registrada na história da música regional. Ao lado do chamado “Rei do Disco”, a “Menina da Gaita”, como Mary ficara conhecida, rodou todo o Brasil, acompanhando o artista em turnês pelos EUA, Canadá, Portugal e países da América Latina. As trovas eram marcas registradas do casal nos palcos e nas rádios, nas quais eram apresentados desafios engraçadíssimos entre os dois através do repente.

Teixeirinha também passou a apresentar grande versatilidade em seu repertório se notabilizando como um referencial muito forte na música brasileira, com xotes, vaneiras e rancheiras, além de compor e cantar samba-canções, marchinhas, boleros e tangos, o que aumentava a aceitação do artista em relação ao seu público. Em virtude de diversos sucessos seus, recebeu prêmios como o “Troféu Chico Viola" da TV Record de São Paulo (1963) e o “Elefante de Ouro” em Portugal, além de diversos Discos de Ouro.

Como artista popular, também enfrentou resistências, sendo muito lembrada uma ocasião em que participou do programa de Flávio Cavalcanti, um dos grandes apresentadores de televisão da época, no qual foi muito questionado, sabatinado, e até ironizado, respondendo às perguntas e afrontas com muita serenidade e humildade. Outro ícone da comunicação brasileira, Abelardo Barbosa, o Chacrinha, recebia muitos pedidos em seu programa de rádio para tocar a música “Coração de Luto”, o que o apresentador passou a chamar ironicamente de “Churrasquinho de mãe”. Isso pois a letra trata da história verídica da morte de sua mãe. Ele ainda sofreu acusações por parte de críticos de querer supostamente lucrar em cima de uma tragédia familiar. No entanto, foi superando todos os obstáculos e construindo um grande legado para a música popular e tradicionalista.

­­Outra faceta sua foi o cinema, onde acabou escrevendo, produzindo e gravando um total de 12 filmes entre 1967 e 1980, nos quais sempre interpretava personagens simples e bem identificados com o seu público. A primeira película foi “Coração de Luto”, produzida pela Leopoldis-Som e dirigido por Eduardo Lorente, em 1967. O filme foi um sucesso de bilheteria em cinemas de todo o Brasil, seguido por “Motorista sem Limites”, de Itacir Rossi (1969). Posteriormente, os demais filmes do artista passaram a ter produção independente, como “Tropeiro Velho”, “Ela Tornou-se Freira” e “Pobre João”. Com a obra construída no cinema e a grande repercussão, somadas ao pioneirismo regional na produção cinematográfica, Teixeirinha passou a ser considerado o pai do cinema gaúcho.

Na sua obra, também estão eternizadas canções como “Querência Amada”, “Tropeiro Velho”, “Pobre João”, “Tordilho Negro” e tantas outras, que continuam sendo ouvidas e regravadas, além de conquistar uma enorme legião de fãs durante a carreira, mantendo o protagonismo até os dias atuais. Sua música possui uma identificação muito forte com o regionalismo gaúcho, pois tem em sua composição melodias simples, letras de fácil compreensão e de grande apelo popular. Provavelmente seja esse um dos segredos da enorme popularidade de Teixeirinha.

Ele foi agraciado como Cidadão Honorário em várias cidades, sendo Passo Fundo uma das cidades que mais externa o reconhecimento. Sempre que podia, encontrava um espaço em sua agenda para vir até o município rever seus amigos e conviver com a comunidade. Ele fazia questão de se envolver e enaltecer seu público, pois sabia como chegar nele, já que, segundo ele dizia, seus fãs e o próprio Teixeirinha tinham a mesma origem. Após diminuir sua produção, devido a problemas de saúde, manteve-se fiel a seu público.

Vitor Mateus Teixeira faleceu em Porto Alegre, vitimado pelo câncer, aos 58 anos de idade no dia 4 de dezembro de 1985. Ele foi velado e sepultado no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, na capital gaúcha, sendo cortejado por cerca de 50 mil pessoas no trajeto até o local do enterro. Em Passo Fundo, uma praça, um monumento localizado no centro da cidade e um ginásio esportivo possuem seu nome. Em 1997 foi instituída a Medalha Teixeirinha para ser concedida a pessoas com serviços relevantes prestados à cultura no município. Já, em 2002, um de seus clássicos, “Gaúcho de Passo Fundo”, foi decretada como canção oficial do município sendo executada ao final de solenidades na Câmara de Vereadores. Teixeirinha sempre será lembrado como um dos grandes artistas da cultura rio-grandense, tido como um dos grandes ídolos populares da música brasileira e por ter levado o nome de Passo Fundo para o Brasil e para o mundo.

Arte: Comunicação Digital / CMPF