NOTÍCIA
HISTÓRIA
Djanira Ribeiro é lembrada como um dos grandes nomes da cultura no município
A
série “Revivendo Passo Fundo” segue resgatando a história do município através
dos nomes de ruas e logradouros denominados por nomes de mulheres que deixaram
sua marca e seu legado para a cidade no decorrer deste mês de março. Nessa
edição, a personagem é a líder cultural, educadora, cantora, sambista e
compositora, Djanira Isaías Ribeiro. Ela deixou sua marca no município por seu
pioneirismo em aproximar a cidade da cultura negra, deixando um enorme legado
de ações no âmbito cultural, em especial no que diz respeito à cultura
afro-brasileira e africana. Ela ainda atuou como educadora em várias escolas
municipais e foi incentivadora de jovens negros, em especial mulheres negras, a
estudarem e ingressarem em universidades. Como reconhecimento, uma via pública
localizada no Loteamento Parque dos Eucaliptos, na Vila Matos, leva seu nome.
Djanira Isaías Ribeiro nasceu em Passo Fundo, no dia 4 de fevereiro de 1943, sendo filha de Credomiro Machado e Almerinda de Jesus Isaías. Desde muito cedo, ela fora induzida a conviver no meio cultural, especialmente por influência de sua mãe Almerinda, que já atuava em ações voltadas à cultura negra. Neste contexto, já trabalhava com muita assiduidade em eventos em torno do carnaval e que exaltassem a cultura negra. Porém, ela viria a ser protagonista neste setor em pouco tempo.
Isso porque Djanira passara a ter atuação firme e relevante junto ao Clube Visconde do Rio Branco, fundado por seus antepassados (segundo registros, seu avô foi um dos fundadores) em **1916**, com o intuito de abrigar e incluir negras e negros que não eram bem-vindos em outros clubes sociais do município. Nesta entidade, sua influência foi em mudar os parâmetros dos desfiles de carnaval na cidade, trazendo elementos que não eram utilizados nestes eventos em nível local, como as figuras do mestre-sala e porta-bandeira, introdução da harmonia para acompanhar a bateria, e comissão de frente. Deste modo, ela revolucionou o cenário local neste meio importando estes itens do carnaval do Rio de Janeiro, tido como referência.
Djanira desenvolveu um trabalho à frente do clube Visconde do Rio Branco que foi marcante, pois atuou decisivamente em vários setores. Ela foi influente desde os figurinos, confecção de fantasias, passando pelo enredo, composição e chegando à interpretação dos sambas-enredo. Com esses implementos, o carnaval passo-fundense teve um grande avanço estético, impactando nos critérios utilizados nas avaliações dos desfiles, além da popularização do evento na cidade e região. Já vista e respeitada como carnavalesca, ela teve papel importante junto à escola de samba Bom Sucesso.
O seu trabalho teve reflexos em outras regiões do estado, como em Santa Maria (RS). Em certa ocasião, Djanira prestou seus serviços e conhecimento para o carnaval local, redundando em um valioso trabalho junto à escola de samba Unidos do Itaimbé, que acabou conquistando o título.
Em seu retorno para Passo Fundo, fundou o Grupo Alforria, que segue em plena atuação como uma das entidades mais relevantes e expoentes da identidade afro-brasileira no município e na região do Planalto Médio. Este grupo atua em eventos, disseminando a cultura e música de origens africanas, e marca presença na Romaria de São Miguel, que é uma peregrinação de fiéis que tem como destino final a Capela de São Miguel, situada na localidade do Pulador (na época da construção da Capela, era chamada Pinheiro Torto), que é realizada desde 1871, sendo considerada a mais antiga do Rio Grande do Sul.
Djanira também é lembrada por sua atuação social enquanto educadora, pois, junto ao clube Visconde, ela teve grande influência em pessoas de comunidades mais humildes. Ela trabalhou como professora e educadora em várias escolas municipais e se engajou na inclusão social por meio da educação, integrando um grupo de apoio a jovens que, por meio de aulas gratuitas, incentivou jovens negros, em especial mulheres, a estudarem e ingressarem em universidades. Para isso, ela também se empenhava em ajudar pessoas de baixa renda na inclusão em cursinhos pré-vestibular. Já enquanto diretora do clube Visconde do Rio Branco, foi responsável por organizar eventos como bailes de debutante para meninas da comunidade, nos mesmos moldes das festas organizadas nos demais clubes do município.
Ao longo de sua vida, Djanira conciliou com êxito sua jornada enquanto educadora, líder cultural, compositora e sambista, construindo uma sólida carreira musical e se consolidando como um dos principais nomes do gênero em Passo Fundo e região. Ela focou durante sua vida na luta pela cultura afro-brasileira e africana, além de ter intensa atuação em defesa do povo negro passo-fundense.
Djanira Isaías Ribeiro estava em atividade permanente, tanto que durante uma apresentação sofrera uma parada cardiorrespiratória e ficou internada por cerca de 15 dias. Porém, não resistiu a complicações cardiovasculares e faleceu no dia 30 de junho de 2019, aos 76 anos. Ela foi velada e cremada no memorial Vera Cruz, em Passo Fundo, com presença de carnavalescos, integrantes da cultura afro, do candomblé e da umbanda. Ela foi casada com José Leônidas Ribeiro e teve quatro filhos – Ludmila, Odorico, Alexandre e Gustavo – além de deixar seis netos e dois bisnetos. Para eternizar seu legado, um Projeto de Lei de autoria da vereadora Eva Valéria Lorenzato (PT) foi aprovado em 2021, posteriormente sancionado pelo Executivo, dando seu nome a uma via pública situada no Loteamento Parque dos Eucaliptos, na Vila Matos.
Arte: Comunicação Digital / CMPF
